
Ensaio

As armas e as cotas

A batalha adiada da igualdade racial nas Foras Armadas




 Reproduo
["A Batalha dos Guararapes" (1879), de Vtor Meireles, narra a formao mtica de um Exrcito multirracial que lutou contra os holandeses em 1648-49]
"A Batalha dos Guararapes" (1879), de Vtor Meireles, narra a formao
mtica de um Exrcito multirracial que lutou contra os holandeses em
1648-49

LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO


RESUMO Impermeveis s polticas afirmativas do governo Dilma, as Foras
Armadas no promovem a formao de altos comandantes cujo rosto espelhe
o da populao brasileira. ndia, frica do Sul e EUA (que destacaram
oficial negro para comandar frota no Atlntico Sul) do valor
estratgico  questo racial nas elites militares.

Nas vsperas do Sete de Setembro, cabe lembrar as perspectivas sobre as
Foras Armadas inscritas no "Livro Branco da Defesa Nacional" (LBDN),
apresentado em junho  presidente da Repblica e ao Congresso.

Organizado pelo ministro da Defesa, Celso Amorim, o Livro Branco
constitui uma iniciativa original. Tanto na forma quanto no seu
contedo. Faltou, na imprensa e nos meios polticos e universitrios, um
debate  altura das anlises elaboradas no LBDN. Pela primeira vez, a
reflexo sobre as Foras Armadas e a diplomacia esto associadas num
documento governamental que analisa as relaes de fora no mundo atual.

Resta que o LBDN no aborda um problema importante -de repercusso
nacional e internacional-, que Amorim ajudou a comear a resolver no
Itamaraty. Problema com o qual ele e seus sucessores no atual ministrio
tambm tero que lidar: a discriminao racial no escrita que exclui
negros e mulatos do alto oficialato das Trs Armas.

No Itamaraty, o assunto foi abafado durante muito tempo. Entrou pela
primeira vez em pauta quando o presidente Jnio Quadros, em 1961, na
poca da independncia das colnias africanas, nomeou o escritor
Raimundo Souza Dantas (1923-2002) embaixador em Gana.

Primeiro e nico embaixador negro desde a Independncia, Souza Dantas
escreveu "frica Difcil, Misso Condenada: Dirio" (1965), que narra a
discriminao de que foi vtima, por parte de intelectuais e diplomatas
brasileiros, no seu posto na frica. Quando o livro saiu, a ditadura j
sufocava o debate sobre esse e outros assuntos.

Agindo como pau-mandado do colonialismo portugus, o Itamaraty perseguiu
o ento diplomata e futuro dicionarista Antnio Houaiss (1915-99).
Membro da Comisso de Descolonizao da ONU, Houaiss dialogava com os
movimentos independentistas da frica lusfona. Como narra o embaixador
Ovdio de Andrade Melo, em seu livro "Recordaes de um Removedor de
Mofo no Itamaraty" (2009), a pedido de setores salazaristas, Houaiss foi
cassado e demitido do Itamaraty, acusado de ser "inimigo de Portugal".

No entanto, cada vez que o governo abria uma embaixada na frica,
inclusive nos pases lusfonos, j escaldados pela colaborao de
Gilberto Freyre (1900-87)com o colonialismo salazarista, escancarava-se
um paradoxo: como acreditar que o Brasil era uma "democracia racial" se
todos os diplomatas, e at os contnuos da embaixada, eram brancos? A
branquidade encenada pelos diplomatas brasileiros entravava a poltica
do Brasil na frica.

Com a redemocratizao, o debate voltou  ordem do dia. Em 2002,
iniciou-se o programa Bolsa Prmio de Vocao para a Diplomacia.
Implementado pelo Itamaraty, o programa concede a afrodescendentes
bolsas de preparao ao concurso  carreira diplomtica.

A necessidade de aproximar o rosto interno do rosto externo do pas foi
sublinhada pelo ento presidente Fernando Henrique, em dezembro de 2001:
"Precisamos ter um conjunto de diplomatas -temos poucos- que sejam o
reflexo da nossa sociedade, que  muliticolorida e no tem cabimento que
ela seja representada pelo mundo afora como se fosse uma sociedade
branca, porque no ".

Sob a presidncia de Lula, o processo se consolidou. Em julho de 2008,
em Braslia, o ento chanceler Celso Amorim enfatizou que a democracia 
"incompatvel" com a discriminao, acrescentando: "Acreditvamos que
ramos uma democracia racial. Hoje sabemos que isso no  verdade".

AJUSTE Contudo, o ajuste entre o rosto interno e o rosto externo do pas
 longo e difcil. No ltimo dia 18 de agosto, reportagem de Flvia
Foreque na Folha revelou que, dentre as 40 novas embaixadas abertas na
frica, 35 tm um corpo de diplomatas inferior ao previsto. Por qu?
Porque alguns itamaratecas, que se acham, evitam as embaixadas
africanas, acreditando que tais postos rebaixam suas carreiras.

Celso Amorim deixou o Itamaraty e, depois de uma pausa, assumiu o
ministrio da Defesa. Graas  sua iniciativa, redigiu-se o "Livro
Branco". Com 270 pginas, o documento contou com o aporte de vrios
ministrios e duas centenas de colaboradores.

De sada, o LBDN salienta as bases da geopoltica nacional: "O Brasil d
nfase a seu entorno geopoltico imediato, constitudo pela Amrica do
Sul, o Atlntico Sul e a costa ocidental da frica". Mais adiante, a
importncia do espao ocenico  reiterada, porquanto o Brasil  o "pas
com maior costa atlntica do mundo".

Citado no texto introdutrio da presidente Dilma Rousseff, o pr-sal 
objeto de mais quatro referncias no LBDN. A posse da Zona Econmica
Exclusiva de 200 milhas martimas (onde est o pr-sal) garantida pela
Conveno da ONU de 1994, que foi assinada por 152 pases,  destacada.

Mas o documento tambm observa que nem todos pases aderiram 
conveno, "inclusive grandes potncias", circunstncia que "pode se
tornar, no futuro, uma fonte de contenciosos". O que o LBDN no diz, mas
est nos jornais,  que a nica das "grandes potncias" no aderente 
conveno de 1994  os Estados Unidos.

4 FROTA O tom diplomtico do texto evita ainda referncias a uma
novidade que reconfigura o Atlntico Sul, a volta da 4 Frota americana.
Estabelecida em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45), a 4
Frota foi desmembrada em 1950. Em 2008, foi restabelecida para operar no
Caribe e nos mares da Amrica Central, Amrica do Sul e frica
Ocidental.

Seu renascimento foi saudado pelo "Navy Times", jornal da marinha de
guerra americana: "Quase 60 anos depois de ter fechado, a 4 Frota, que
conduziu a caada aos submarinos alemes no Atlntico Sul, est de
volta. Desta vez, para caar traficantes de drogas no Caribe".

Na Amrica Central e na Amrica do Sul, pouca gente acreditou nessa fita
da caa aos piratas do Caribe. O governo argentino discutiu o assunto
com o governo americano. Mas a reao mais incisiva veio do Brasil.
Respondendo a jornalistas argentinos, em setembro de 2008, o presidente
Lula declarou: "Estou preocupado com a 4 Frota americana, porque ela
vai exatamente para o lugar onde ns achamos petrleo".

Tal armada de porta-avies, cruzadores e submarinos  comandada por um
ilustre oficial negro, o contra-almirante Sinclair M. Harris. Feliz
coincidncia para o prestgio do contra-almirante Harris e para o lustre
da U.S. Navy, sua poderosa esquadra singra entre a costa atlntica
africana e o pas americano que conta com o maior nmero de
afrodescentes.

Neste contexto apenas subentendido no LBDN, a Zona de Paz e Cooperao
do Atlntico Sul ganha todo o seu relevo. Instaurado pela ONU em 1986,
esse tratado abrange o Brasil, Argentina, Uruguai e 21 pases africanos.
Programas de colaborao militar esto em curso nesses pases, com
destaque para a Nambia -cuja costa situa-se em latitudes idnticas 
faixa do litoral brasileiro contendo o pr-sal-, a qual envia boa parte
dos oficiais de sua Marinha de Guerra para se formarem no Brasil.

O LBDN assinala uma cooperao mais direta com a frica do Sul, no
intercmbio de oficiais e no desenvolvimento do mssil A-Darte e, mais
alm, com a ndia, no avio de transporte Embraer 145, dotado de radar
indiano.

A colaborao com a frica do Sul e a ndia  reforada pelo Frum Ibas,
reunindo o Brasil aos dois pases. Fundado em 2003, sob o impulso do
ento chanceler Celso Amorim, o Ibas  definido como "um mecanismo de
coordenao entre trs pases emergentes, trs democracias multitnicas
e multiculturais, que esto determinados a redefinir seu lugar na
comunidade de naes".

Efetivamente, o Brasil, a frica do Sul e a ndia constituem um grupo
exemplar de democracias multitnicas e multiculturais. No h quem
duvide disso, quando percorre as ruas das grandes cidades desses pases.

Salvo em algumas altas instncias, como as Academias Militares. Ali, o
rosto dos cadetes, dos futuros oficiais superiores brasileiros,
predominantemente branca, destoa da igualdade tnica e multicultural do
oficialato das Foras Armadas da frica do Sul e da ndia. Destoa,
sobretudo, da sociedade brasileira.

Graas aos avanos constitucionais do pas, as Foras Armadas tm
evoludo. Mulheres passaram a ser admitidas nas Trs Armas, embora suas
funes sejam geralmente restritas aos servios administrativos e de
sade.

Tambm  certo que h, desde o sculo 19, certo nmero de oficiais
afrodescendentes e que as escolas militares no vetam mais certas
categorias da populao.

Assim, como revelou o historiador Fernando Rodrigues, da UFRJ, na
reportagem de Leonencio Nossa, no jornal "O Estado de S. Paulo", em 12
de maro de 2011, at o final da Segunda Guerra Mundial (1939-45), as
escolas militares barravam formalmente a entrada de negros, judeus,
islmicos, filhos de pais separados e filhos de estrangeiros.

SAITO Muita coisa mudou para melhor. Em 2007, a comunidade
nipo-brasileira saudou a nomeao no comando da Aeronutica do
brigadeiro Juniti Saito, nascido em Pompeia (SP) e filho de imigrantes
japoneses. No ano seguinte, viajando a Tquio como convidado especial do
governo japons, o comandante foi recebido pelo Imperador Akihito.

Saito visitou tambm uma escola de filhos de imigrantes brasileiros.
Segundo o site nikkeypedia.org.br , ele declarou na sada: "Eu me
identifiquei com aquelas crianas porque passei o mesmo que elas quando
cheguei ao Brasil. At os cinco anos de idade, s falava japons dentro
de casa". A menos que tenha sido o resultado de um erro de transcrio,
o lapso do brigadeiro Saito ("quando cheguei ao Brasil") 
significativo.

Mostra o estranhamento e a emoo da "chegada"  escolinha paulista, e
d mais fora ao seu mrito e  competncia da Escola Militar na
conduo de sua trajetria at a chefia da Aeronutica.

Da mesma forma que a carreira do contra-almirante Harris impressiona os
oficiais africanos e brasileiros, o dinamismo social e democrtico que
impulsionou a carreira do comandante Saito deve ter impressionado os
oficiais do Japo. No Extremo Oriente, o retrato do oficialato
brasileiro, apresentado como um corpo militar multitnico, ganhou foros
de verossimilhana. No Extremo Ocidente  outra histria.

GUARARAPES Sabe-se que a hierarquia militar sempre afirmou sua
consonncia com o colorido da sociedade. Como outros documentos
oficiais, o LBDN se refere  primeira Batalha de Guararapes (1648),
palco da vitria icnica das Foras Armadas: "Foi o evento histrico
considerado gnese do Exrcito, nessa ocasio as foras que lutaram
contra os invasores foram formadas genuinamente por brasileiros
(brancos, negros e amerndios)".

Depois disso, os holandeses se renderam, a populao indgena declinou,
chegaram muito mais africanos, mais portugueses, outros europeus, e
tambm os levantinos e os asiticos que formaram a atual sociedade
brasileira.

As Foras Armadas mudaram, mas a sociedade mudou mais rpido. A
referncia encantatria s foras brasileiras na Batalha de Guararapes,
pintadas como um exrcito multitnico, no cola  realidade. No 
preciso fazer um desenho para mostrar que h um desequilbrio gritante
no escalonamento hierrquico das Trs Armas.

Como em outros setores governamentais, os brancos sempre dominaram as
patentes mais elevadas, em detrimento da presena dos afrodescendentes,
que compem atualmente a maioria dos recrutas e da populao do pas.
Para retomar a anlise do ento presidente FHC, trata-se de uma situao
que "no tem cabimento".

A doutrina constitucional e a dinmica democrtica tem tornado a
sociedade brasileira mais justa. Desse modo, a Constituio decreta que
"todos so iguais perante a lei, sem distino de qualquer natureza"
(art. 5), e completa o preceito com as polticas afirmativas,
determinando a "proteo do mercado de trabalho da mulher, mediante
incentivos especficos, nos termos da lei" (art. 7  20).

Consoantemente, a presidente Dilma Rousseff promove a nomeao de
mulheres nos altos cargos, numa poltica pblica para ningum botar
defeito.

De seu lado, o Judicirio e o Legislativo tm procurado corrigir as
desigualdades herdadas do passado para reforar a democracia. No ms de
abril, o Supremo Tribunal Federal decidiu, unanimemente, que as cotas
raciais nas Universidades estavam em conformidade com a Constituio.

Como  notrio, o STF  raras vezes unnime em seus julgamentos. A
concordncia dos ministros sobre matria to controversa, e combatida
pela grande maioria dos editorialistas, conferiu mais peso ainda 
deciso, que tornou-se jurisprudncia.

Aps longo estudo, o STF reconheceu que existe no Brasil discriminao
tnica estrutural -embora no inscrita nas leis-, que as universidades
pblicas tem o direito constitucional de combater.

Na sequncia, o Congresso aprovou a lei que reserva 50% das vagas das
universidades federais para estudantes de escolas pblicas. Metade das
cotas, ou 25% das vagas, vai para estudantes cujas famlias tenham renda
at 1,5 salrio mnimo. Os outros 25% das vagas so reservados aos
estudantes negros, pardos ou indgenas. Persistem dvidas sobre a
aplicao da lei no Instituto Tecnolgico da Aeronutica (ITA), que
depende do Ministrio da Defesa.

Independentemente das Academias Militares, os oficiais superiores esto
cada vez mais envolvidos na poltica externa. Alis, o LBDN registra a
frequente "participao articulada de militares e diplomatas em fruns
internacionais [...] na tarefa de defender, no exterior, os interesses
brasileiros".

Cedo ou tarde a branquidade do oficialato entravar o papel
internacional das Foras Armadas. O acomodamento nacional -to bem
resumido na frase "Imagina na Copa!"- pode continuar esperando que as
coisas, na hierarquia militar e alhures, evoluam a partir de crticas
externas.

A frase citada acima, e seu complemento carioca "Imagina na Olimpada!",
tem duplo sentido. O significado imediato mostra que se est apreensivo
com a chegada de tanta gente de outros pases.

Menos bvio, o segundo sentido deixa entender que se espera uma melhoria
nos servios pblicos, na telefonia celular, nos aeroportos. Assim, o
bordo "Imagina na Copa!" revela tambm um comportamento acomodado e
subalterno: j que os cidados (brasileiros) no impem respeito, vamos
tirar proveito do respeito imposto pelos consumidores (estrangeiros).

Como sucedeu no Itamaraty, o apelo  representao multitnica, 
aproximao entre o rosto multicolorido dos recrutas e o rosto dos
oficiais superiores, poder tambm vir de fora para dentro, das
parcerias militares desenvolvidas com pases do Caribe e da frica, e
at com a 4 Frota americana.

No obstante, no seu discurso de posse, Celso Amorim fez uma afirmao
que indicava sua inteno de no aceitar acomodamentos e
subalternidades.

De fato, na sua fala, Amorim props uma gesto mais democrtica no
Ministrio da Defesa: "Devemos valorizar a discusso de temas como
direitos humanos, desenvolvimento sustentvel e igualdade de raa,
gnero e crena". Tais temas no sofrem contestao nas Foras Armadas.

Salvo a discusso do tema da igualdade de raa. To presente na
sociedade brasileira, to ausente no "Livro Branco da Defesa Nacional".

O "Livro Branco da Defesa Nacional" no aborda um problema importante: a
discriminao racial no escrita que exclui negros e mulatos do alto
oficialato

No Extremo Oriente, o retrato do oficialato brasileiro, apresentado como
um corpo militar multitnico, ganhou verossimilhana. No Extremo
Ocidente  outra histria

Cedo ou tarde a branquidade do oficialato entravar o papel
internacional das Foras Armadas. Como no Itamaraty, o apelo poder vir
de fora para dentro
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Ilustrssimas revistas

O MELHOR DA CULTURA EM 9 INDICAES



REVISTA IEB 54 A publicao semestral do Instituto de Estudos
Brasileiros da USP traz artigo indito de Antonio Candido sobre as
primeiras exibies de arte moderna em So Paulo, entre os anos 1930 e
50. H ensaio sobre etnografia em Cmara Cascudo e Mrio de Andrade e
desenhos de Anita Malfatti, retirados de seus cadernos de esboos, na
edio. Editora 34 | 210 pgs. | R$ 20

TERESA 10 e 11 Tradues inditas do poeta alemo Hans Magnus
Enzensberger, por Vinicius Dantas, e poemas de Bento Prado Jr. esto na
nova edio da revista literria coeditada pela USP, editora 34 e
Imprensa Oficial SP. A edio traz textos crticos sobre autores
contemporneos como Bernardo Carvalho, Joo Gilberto Noll e Paulo
Henriques Britto. 430 pgs. | R$ 40

COYOTE 24 A revista de literatura editada em Londrina por Rodrigo Garcia
Lopes, Marcos Losnak e Ademir Assuno comemora dez anos de existncia.
A edio traz dossi~e sobre vida e obra do escritor paulistano Joo
Antonio (1937-96), alm tradues de poesia (Borges por Josely Vianna
Baptista), fotos e textos de fico (como conto de Amilcar Bettega). Kan
| 52 pg. | R$ 10

DICTA & CONTRADICTA 9 O pensamento de Friedrich Nietzsche  o principal
tema do volume, abordado em trs textos, de Luiz Felipe Pond, colunista
da Folha, Oswaldo Giacia Jr. e do escritor austraco Stefan Zweig
(1881-1942). A edio ainda traz poemas em prosa de Paul Valry,
inditos no Brasil, traduzidos por Rodrigo de Lemos. Civilizao
Brasileira | 280 pgs. R$ 29,90

McSweeney's 41 Criada pelo ficcionista David Eggers para absorver textos
recusados por outras publicaes, a McSweeney's logo abandonou o projeto
inicial e firmou-se como uma das mais inventivas revistas literrias dos
EUA. A nova edio traz um pequeno dossi com textos de autores
aborgines australianos, alm de contos e trabalhos de no fico, como
o que Viveca Mellegard escreve sobre as mudanas no bairro mais rico de
Teer. Pub Group West | 248 pgs. | R$ 68,20

APARTE XXI 5 Editada pelo Teatro da Universidade de So Paulo, a revista
rene textos que debatem, de diferentes formas, a relao entre
espetculo e plateia. Augusto Boal assina ensaio sobre a arte dramtica
na Grcia Antiga, e o poeta e cineasta Pier Paolo Pasolini (1922-75) tem
seu "Manifesto por um Novo Teatro" reproduzido no volume. Imprensa
Oficial SP | 184 pgs. distribuio gratuita no Tusp

IDE 54 O peridico da Sociedade Brasileira de Psicanlise elege como
tema do nmero o caos, relacionado, segundo o editorial, "tanto com as
foras desligantes da pulso de morte, quanto com os excessos
desordenados do 'Id'". Em entrevista, Marcelo Gleiser explica o conceito
de caos na fsica e na astronomia. *218 pgs. | R$ 35;  venda em
www.sbp

NOVOS ESTUDOS 93 A teoria crtica  o principal tema da edio -o dossi
inclui texto de Marcos Nobre, pesquisador da instituio, sobre a "nova
gerao", e do coreano Jaeho Kang sobre mdia e democracia. Em texto de
Paula Montero, o Cebrap homenageia o socilogo Antnio Flvio Pierucci,
morto em junho, e publica ensaio visual do ilustrador Andrs Sandoval.
176 pgs. | R$ 20

ESTUDOS AVANADOS 75 O recente nmero da revista quadrimestral da USP,
editada por Alfredo Bosi, inclui dossi sobre o novo-desenvolvimentismo,
com Luiz Carlos Bresser Pereira, Arturo Guilln e outros. Jos de Souza
Martins organiza outro dossi, "Sociologia e Esperana", com textos de
nomes como Bosi e Peter Burke. H verso digital gratuita na SciELO (
bit.ly/S1ZEaQ ) 370 pgs. | R$ 30
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Ilustrssimos desta edio



ARNALDO BRANCO , 40, quadrinista, publicou "O Mau Humor de Arnaldo
Branco" (Flneur).

ALVARO COSTA E SILVA , o "Marechal", 49,  jornalista.

CLAUDIUS CECCON , 74,  arquiteto, designer e cartunista.

DANIEL TRENCH , 34,  designer e diretor de arte da revista "Serrote"
(Instituto Moreira Salles)

DIOGO BERCITO , 24,  reprter da Folha .

JOHN NAUGHTON  professor na Open University.

KIKO GOIFMAN , cineasta,  autor de "Filmefobia" (2008).

LCIO CARDOSO (1912-68) escreveu o clssico "Crnica da Casa
Assassinada" (Civilizao Brasileira).

LUS AUGUSTO FISCHER , 54, professor da UFGRS,  autor de "Inteligncia
com Dor - Nelson Rodrigues Ensasta" (Arquiplago).

LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO , professor titular da ctedra de Historia do
Brasil na Universidade Sorbonne e professor convidado da FGV-SP,  autor
de "O Trato dos Viventes" (Companhia das Letras).

RAFAEL CAMPOS ROCHA , 42, quadrinista, autor de "Deus, Essa Gostosa"
(Quadrinhos na Cia.).

PAULO MIGLIACCI , 44,  tradutor.

VALRIA LAMEGO organizou a obra indita de Lcio Cardoso e  autora de
"A Farpa na Lira - Ceclia Meireles na Revoluo de 30" (Record).

VERIDIANA SCARPELLI publicou "O Sonho de Vitrio".
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Na internet



A BIBLIOTECA DE RAQUEL

A reprter da "Ilustrssima" e colunista do Painel das Letras comenta as
notcias do mercado editorial

folha.com.br/ilustrissima

Atualizao diria da pgina da "Ilustrssima" no site da Folha

ILUSTRAO

Mais imagens do nmero 41 da revista norte-americana McSweeney's

FORAS ARMADAS

Leia mais sobre o "Livro Branco da Defesa Nacional"

folha.com/ilustrissima
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Literatura

Mar de Lcio

Contos mostram face ensolarada de Cardoso VALRIA LAMEGO


RESUMO Conhecido pelo estilo sombrio, Lcio Cardoso (1912-68) tem seus
contos reunidos em livro pela primeira vez. Nesta verso condensada de
sua apresentao, a organizadora do volume, que sai em outubro pela
Civilizao Brasileira, repassa vida e obra do escritor e comenta faceta
solar do "demnio" mineiro.

Disputado por bomios e casais que fugiam dos bares agitados de Ipanema,
como o Jangadeiro e o Veloso, o bar Lagoa estava cheio naquela noite
clara, convidativa. Uma festa, no apartamento logo acima do bar -a casa
do escritor Lcio Cardoso-, agitava a calma vizinhana da Lagoa.

O ano, 1951. L pelas tantas, no auge da festa e do bar, no qual
notvagos enchiam as mesinhas da varanda, um homem, quase nu, se joga da
janela do escritor e cai bem em cima dos toldos verdes que at hoje
cobrem a varanda do bar histrico. Susto geral. Ningum se feriu. E o
louco anfitrio sumiu pelas alamedas escuras.

Mas a lenda daquele salto cobriu o escritor, que viveu todas as suas
experincias no limite. Brincou com a morte; flertou com a loucura,
rompeu dolorosamente com alguns padres ticos e estticos e deixou para
a literatura brasileira pginas e mais pginas de pura prosa potica,
dramtica e sensivelmente expressionista, como nenhum outro autor
brasileiro do perodo, marcado por lutas ideolgicas e de poder
literrio.

Na mesa do bar, pedia lpis e papel -quem tivesse olhos para ver que
visse. Bebendo chope, "transfigurando tudo pelo verbo".

Lcio nasceu em 14 de agosto de 1912, em Curvelo, regio central de
Minas Gerais. Caula de uma famlia de seis irmos, conheceu as guas
ocenicas ainda menino, quando, aos 11 anos, se mudou com a famlia de
Belo Horizonte para a Tijuca, zona norte do Rio.

Entre os anos 1940 e 1960, o convvio com o mar foi cotidiano. Elegeu
Ipanema como seu lugar e l viveu, palmilhou suas ruas estreitas entre o
mar e a lagoa, sempre descalo, e transformou sua casa num centro
irradiador de arte, boemia e literatura. Bebeu vinho e usque at
morrer, em setembro de 1968, em consequncia de um AVC que paralisou seu
lado direito, impossibilitando-o de escrever.

"Adeus, o silncio da rua  perfeito -continuo insone e vagabundearei um
pouco por essas caladas desertas, seu, Lcio", escreveu a Vinicius de
Moraes em 1934. A amizade com Vinicius e o escritor Octvio de Faria, no
incio dos anos 1930, marca a trajetria dos primeiros anos de vida
literria.

Aos 22, lanou "Maleita", logo considerada uma revelao da escola
regionalista na fico brasileira. Celebrada pela crtica carioca e
paulista, a novela fala da experincia de seu pai na fracassada
construo de um ncleo urbano em Pirapora (MG), devastada pela malria.
Em 1935, publicou "Salgueiro", sobre o morro carioca homnimo, tambm em
tons regionalistas, de denncia.

Os primeiros romances foram elogiados. De Mrio de Andrade recebeu
afagos comedidos; Carlos Drummond de Andrade o saudou com entusiasmo;
Jorge Amado publicou uma crtica poltica e social. "Ainda um romance
branco [...] nota-se, no entanto, uns quadros fortes, com homens nus",
escreveu sobre "Maleita", apontando, como defeito, sua "intensidade
potica".

Lcio logo intuiu que o projeto do romance social idealizado por Jorge
Amado, Jos Lins do Rego, Amando Fontes, entre outros -sem falar no
romance proletrio- o distanciava da sua experincia de leitor de
grandes autores como Dostoivski, Edgar Allan Poe, Julien Green, Andr
Gide, Virginia Woolf, Nietzsche e Thomas Hardy.

DEMNIO "A poltica esmaga a literatura", sustentaria mais tarde. Em
pouco tempo, apagou os conceitos do romance regional e social, nos quais
a coletividade sobrepunha a individualidade, o sujeito e, sobretudo, a
linguagem potica. Deu incio, ento, ao seu projeto particular,
individualista e lrico de literatura. Em carta de 1935 para Vinicius,
decreta: "Reneguei a 'Maleita' e o 'Salgueiro'. No penso agora seno no
'Demnio'."

E o dito-cujo veio em rpida e intensa cavalgada. Em 1936, escreveu o
intimista "A Luz no Subsolo", que levou Mrio de Andrade a repensar a
literatura feita naquele momento. Apesar de considerar a leitura penosa
e difcil, confidenciou ao jovem escritor: "Seu livro me fez percorrer
escalas de vaidade pessoal, de esforo de compreenso, de desejo de
gostar, de prazeres reais e de impossibilidades pessoais de acertar".

O escritor paulistano reconheceu ali um sopro de novidade. Mas o
descontentamento do mainstream literrio com as obras de Lcio continuou
em 1939, aps o lanamento de "Mos Vazias" (1938).

Em carta a Lcio, o poeta Manuel Bandeira fala de seu mal-estar aps a
leitura de uma obra marcada pela inverossimilhana: "H uma realidade
que o romancista no pode afastar deliberadamente, e voc parece assim
proceder. Os seus romances nada perderiam de sua rica criteriosidade,
respeitando a verossimilhana essencial das aparncias".

As questes eram to tensas e polarizadas que, numa discusso na
Livraria Jos Olympio, em 1937, Lcio trocou socos e pontaps com o
pernambucano Jos Lins do Rego. Mas, j na dcada de 1950, diante da sua
admirao por Guimares Rosa e seu "Grande Serto: Veredas", fez as
pazes com o romance regionalista ou do norte.

Sua popularidade cresceu nas dcadas de 1940 e 50, ainda mais entre
jovens autores, como Clarice Lispector e Fernando Sabino. O "demnio"
entra de vez em sua obra quando esboa a trilogia "Mundo sem Deus",
composta pelas novelas satnicas "Incio" (1944), "O Enfeitiado" (de
1947, foi publicada em 1954) e "Baltazar" (postumamente).

Sem jamais ter abandonado os cenrios mineiros, sempre desvelando a
decadncia da famlia brasileira patriarcal em dois de seus principais
livros -"Dias Perdidos" (1943) e a obra-prima "Crnica da Casa
Assassinada" (1959)-, deu a esses lugares um drama ntimo e profundo,
sem concesses ao que no fosse profundamente humano e revelasse a
crueldade subjetiva das relaes pessoais e sociais.

Estudava cada gesto -principalmente as sombras, como vemos nas anotaes
de seus cadernos-, at a mais sobrenatural das vises de seus
personagens, muitos deles decalcados de fbulas religiosas.

Teve tambm rara sensibilidade grfica: seus textos vinham acompanhados
de trabalhos de artistas como Oswaldo Goeldi, Santa Rosa, Marcelo
Grassmann, e do prprio Lcio, que se aventurou a desenhar alguns de
seus textos.

Lcio escreveu 15 romances e novelas, roteiros cinematogrficos e peas
de teatro, o insupervel "Dirio", poemas, filmes e quadros, muitos dos
quais realizados nos ltimos anos de sua vida -impossibilitado de
escrever por causa da doena, viu na pintura sua ltima forma de
expresso.

CONTOS Belos e desconhecidos, seus contos ficaram por mais de 70 anos
escondidos em velhos jornais das dcadas de 1930 e 1940. O que explica
esse fenmeno? Talvez nossa eterna fome pelo novo no encontre espao
para a recuperao de uma literatura perdida.

Jovens autores no leem os tradicionais autores brasileiros, uma
tendncia marcante de nossa literatura contempornea; mas o fato de
Lcio ter ficado num "entrelugar" da cultura brasileira no ajudou em
nada a recuperar sua obra.

Homossexual, foi tido pela esquerda como um conservador, por ter
preterido as questes sociais e abraado a liberdade lrica; pregou em
seu "Dirio" um forma de pensamento que passa de Nietzsche s alegorias
cruis de um catolicismo esttico; acreditava em Deus e no gostava da
imagem de um Cristo apaziguador. No fundo, era um grego que vestia as
sandlias dos santos romanos. Tinha culpa. E a confessava.

Em "Contos da Ilha e do Continente", seu primeiro volume de narrativas
curtas, foram reunidos 27 contos e uma novela, "Cu Escuro", cuja ltima
publicao data de 1940 (leia o conto "Simples Encontro"  pg. 10). Em
vida, que se saiba, publicou dois contos em livro, ambos em coletneas.

Com seu centenrio de nascimento, celebrado no ltimo dia 14, vm saindo
volumes de material indito ou disperso -a poesia completa e trechos
jamais publicados de seu "Dirio", pela editora Civilizao Brasileira,
organizados por sio Macedo Ribeiro. Um filme que dirigiu, "A Mulher de
Longe", tambm foi recuperado pelo cineasta Luiz Carlos Lacerda.

Concentrada entre as dcadas de 1940 e 1950 no "Letras e Artes",
primoroso suplemento literrio do jornal "A Manh", a sua produo de
contos chega a mais de 300 textos. Parte substancial foi dedicada ao
mundo do crime e da urbe carioca na dcada de 1950: so os contos
policiais, praticamente fbulas urbanas, que sero reunidas em "Crime do
Dia", a sair em 2013.

Nos "Contos da Ilha e do Continente", inaugura um novo topos em sua
prosa: o mar. E se arrisca no mundo fantstico de Allan Poe.

Suas primeiras colaboraes literrias em jornais so de 1930, em contos
que trazem um jovem autor navegando nas guas da incerteza estilstica,
tateando seu universo de possibilidades temticas. Entretanto, o mais
intenso e criativo perodo de sua vida foram os anos de 1940 e 1950,
quando leva para a literatura sua paixo pelo mar e pelos encantos das
ilhas.

O mar de Lcio, de certa forma, representa a instabilidade do novo
mundo, medida numa balana em que os pesos pendem sempre irregularmente
entre as escolhas da vida e um Deus traioeiro e vingativo; entre os
desejos da carne e a religio; a vida e a arte.

Tempos de guerra, fracassos pessoais e dvidas, os anos de 1940 foram
tambm uma dcada de amizades, quando conhece Clarice Lispector,
Fernando Sabino e outros jovens escritores e artistas, como a portuguesa
Vieira da Silva e seu marido, o pintor hngaro Arpad Szenes.

Foi tambm o tempo do amadurecimento, quando celebrou seus 30 anos.
Produziu incansavelmente, publicou e escreveu a maior parte de suas
novelas e dos seus textos para o teatro. Alm das referncias ao mar,
nos anos 1940 Lcio flerta com a literatura fantstica de Poe, levando
sua experincia com as novelas satnicas a uma narrativa hiperblica. O
resultado foram os contos "Olhos Mortos", de 1946, e "A Escada", de
1947.

Essas duas narrativas revelaram a dupla identidade do escritor, at
ento desconhecida ou pouco lembrada: o autor de contos, em especial
contos que flertam com o fantstico. A obra literria e artstica de
Lcio, quando mencionada,  imediatamente vinculada ao romance. Nos
volumes inditos, encontramos um grande contista, que usou a tcnica do
conto moderno, acrescentando ao fantstico, gnero europeu e americano
por essncia, um toque local.

Seus contos geram sentimentos de enclausuramento, dor, dvida e angstia
e representam o fracasso do homem moderno.

Mas sempre h uma brisa e um horizonte, onde o ar  limpo e o verde
dominante.

Lcio viveu todas as suas experincias no limite. Brincou com a morte;
flertou com a loucura, rompeu dolorosamente com alguns padres ticos e
estticos

O 'demnio' entra definitivamente em sua obra quando esboa a trilogia
'Mundo sem Deus', composta pelas novelas satnicas 'Incio', 'O
Enfeitiado' e 'Baltazar'

O mais intenso e criativo perodo de sua vida foram os anos de 1940 e
1950, quando leva para a literatura sua paixo pelo mar e pelos encantos
das ilhas
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Crtica

Letras em nmeros

O que as estatsticas dizem sobre a "Granta" LUS AUGUSTO FISCHER


RESUMO Numa anlise quantitativa e comparativa com duas antologias
publicadas na dcada passada, a seleo da "Granta" permite identificar
mudanas no cenrio literrio brasileiro. Entre elas, mais autores
nascidos nas metrpoles e mais enredos autorreferentes -ter o leitor
mais interesse hoje na vida dos escritores?

Fez bastante barulho a antologia "Os Melhores Jovens Escritores
Brasileiros", da revista britnica "Granta", lanada em julho pelo selo
Alfaguara. A repercusso foi pesada a ponto de Francisco Bosco, no
jornal "O Globo", ter armado uma defesa da existncia de antologias.
Aqui na Folha , Marcelo Coelho percebeu novidades num relance: saram de
cena os pobres e os desajustados, assim como a prosa regionalista
viciosa, dando lugar a personagens requintados, vivendo experincias na
Europa.

A recepo crtica demonstra a fora da iniciativa, que merece ainda
outra apreciao, que busque detectar tendncias de conjunto.

O jri tinha s leitores hbeis: Beatriz Bracher, Cristovo Tezza,
Samuel Titan Jr., Manuel da Costa Pinto, Italo Moriconi, Benjamin Moser
e Marcelo Ferroni, editor. Vamos contar com o pressuposto elementar de
que elegeram o melhor entre os possveis, sem presso de qualquer outra
natureza.

Por isso, vamos tomar a seleo como representativa do quadro atual no
Brasil. Foram 247 inscries, das quais saram os 20 publicados;
apresentaram-se candidatos de 17 Estados brasileiros, alm de quatro que
vivem fora do pas, mas aqui nascidos.

Pelos currculos, v-se que os selecionados nasceram entre as classes
confortveis e vivem como escritores, editores, colunistas, crticos,
tradutores, roteiristas -em suma, gente do meio letrado, em largussima
maioria.

Pode-se perceber tambm uma outra similaridade: dos 20, apenas um no
publicou por (nem trabalha para) editora carioca ou paulista, mesmo que
alguns tenham estreado em editoras de outros Estados. Nada mais
eloquente em matria de concentrao espacial: um filtro invisvel opera
o tempo todo na seleo.

Essa seleo brasileira sub-40 tem dominncias. Muitos dos autores tm
de fato slida vivncia do exterior, na condio de estudantes ou por
laos familiares. H trs filhos de imigrantes que vieram ao Brasil no
ciclo das ditaduras militares recentes, matria explcita de trs dos
contos; isso  praticamente tudo que h de poltica no volume.

Alis, em 60% dos contos da "Granta" h, no centro do enredo, relaes
entre filhos e pais, talvez uma marca de gerao e de classe. Em 55%,
aparecem citaes ou aluses "cult" (a mais notria  a reiterao da
palavra alem "Weltanschauung", viso de mundo, no texto de Lusa
Geisler), a dar conta do registro letrado em que operam.

Na mo inversa, no h empenho em aproximar do escrito as modalidades de
fala popular.

INTERNET Pela idade,  gente que na infncia ou na adolescncia passou a
conviver com o computador e a internet; no estava ainda na universidade
quando a URSS encerrou sua vida e Fernando Collor foi eleito, marcas
ambas da enorme abertura de mercados experimentada mundo afora; aprendeu
o sexo j com a sombra da Aids; ter sido assaltada uma ou mais vezes na
rotina das cidades brasileiras.

Quanto  qualidade esttica, bem: para este leitor aqui, dos 20, uns
cinco ou seis pegariam titularidade pelo texto apresentado na antologia
-pela ordem na publicao, Michel Laub, Daniel Galera, Antonio Prata,
Julin Fuks, Leandro Sarmatz. Alguns no comprometem, mas no tm fora.

E h contos com inconsistncias mais e menos grosseiras, como
anacronismos (Antnio Xerxenesky supe consumo de maconha como comum no
incio dos anos 60), cosmopolitismo " outrance" (Laura Erber, pelo
extico chique, e Lusa Geisler, pelo deslumbramento), erro factual puro
e simples (Vincius Jatob, num texto verista, ps pombas pousadas em
fios de luz), alm de clichs sobre a rotina da classe mdia trivial
(Vanessa Barbara), sobre realismo mgico (Cristhiano Aguiar) e at sobre
o Rio (Tatiana Levy, uma caricatura de si mesma).

A antologia rende mais. Como um exerccio  moda de Franco Moretti, o
criativo terico italiano que tem posto em relevo modalidades de anlise
quantitativa da literatura (como em "A Literatura Vista de Longe", ed.
Arquiplago), comparamos trs antologias de grande impacto na opinio
pblica, em anos recentes.

Alm da "Granta", com seus 20 autores, entraram na conta outras duas:
"Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Sculo", organizada pelo mesmo
Italo Moriconi (Objetiva, 2000), e "Gerao 90: Manuscritos de
Computador", com organizao de Nelson de Oliveira (Boitempo Editorial,
2001).

Da primeira, foi considerada a ltima seo, "Anos 90: Estranhos e
Intrusos", que contm um total de 17 contos, de 17 diferentes autores. A
segunda compilou textos de 17 autores, em nmero desigual de contos para
cada um.

Primeiro, vamos ver traos da vida dos autores. O grupo de escritores da
"Granta"  o mais metropolitano dos trs, com 90% de nascidos em
capitais, enquanto o "Gerao 90"  o mais marcado pela presena de
gente nascida no interior (41%) -mas, ao mesmo tempo,  o nico conjunto
sem ningum nascido fora do Brasil.

Em nenhuma das trs antologias h algum nascido no Centro-Oeste ou no
Norte. A tendncia notvel  de concentrao na regio Sudeste (64% na
antologia de "Os Cem Melhores", 59% na "Gerao 90", 50% em "Granta").

Chama a ateno, nesta ltima, a presena forte de gachos (25%, ou 30%,
se considerarmos Daniel Galera, nascido em So Paulo, mas criado em
Porto Alegre,) e a ausncia de mineiros, um daqueles silncios
eloquentes, sabendo todos da longa tradio de Minas na revelao de
levas de escritores.

A "Granta" d mostras do avano da luta feminista: h 30% de mulheres no
grupo, contra 12% e 6%, respectivamente, nas duas antologias anteriores.

Contando pela idade dominante dos grupos, considerado o ano do
lanamento de cada coletnea como critrio, em "Os Cem Melhores" havia
63% com mais de 55 anos, plena maturidade, contra os 100% com at 45
anos no "Gerao 90", enquanto na "Granta" todos esto, pelas regras da
publicao, abaixo dos 40 anos -mas, ateno, 65% deles acima dos 30.

PROCEDIMENTOS Agora vejamos o material mais interessante, os dados
colhidos nos enredos e nos procedimentos narrativos.

Entre 20 contos da "Granta", seis ou sete podem ser enquadrados no campo
da autofico, esta espcie de onda que se pode definir pelo
aproveitamento ficcional de dados empricos reais da vida do autor (o
exemplo mais notvel no pas  o romance "O Filho Eterno", de Cristovo
Tezza).

Onze deles tm narradores em primeira pessoa, testemunhais, e em 15
contos predomina o tempo presente nas aes (mas h dois contos situados
no futuro imediato, daqui a um par de anos).

Esses dados, que botam luz no "eu" mais do que em um "outro", ficam
realados quando se constata que nada menos de 50% dos contos apresentam
personagens escritores, marca clara deste tempo -na antologia de "Os Cem
Melhores", nenhum dos enredos era assim autorreferente, e, na "Gerao
90", apenas 18% das histrias envolviam personagens escritores.

O leitor ter de fato mais interesse hoje que h dez anos na vida dos
escritores, nessa proporo?

Numa contagem de incidncias do cenrio rural em contraste com o urbano,
acentua-se levemente na "Granta" uma tendncia das outras duas
antologias: agora, 95% dos enredos tm como cenrio a cidade (em "Os Cem
Melhores" esse nmero era de 88%, no "Gerao 90", de 94%).

Mas a "Granta" se afasta de outra curva regular: nela, 90% dos
personagens relevantes se encontram nas classes confortveis (da classe
mdia-mdia para cima, gente que no passa por apertos significativos de
vida). Na antologia de Moriconi, a diviso era bem outra: 59% de gente
confortvel; na antologia de Nelson de Oliveira, apenas e to somente
35%, a maioria sendo de gente das classes carentes.

Em contrapartida, a "Granta" ostenta, em 55% dos contos, cenas passadas
fora do Brasil. Isso representa uma mudana de impacto, na tradio
local: em "Os Cem Melhores", apenas 18% das histrias tratam do mundo
no brasileiro, e no "Gerao 90" simplesmente no aparece o exterior,
sendo esta a mais rente  matria direta da vida local, com autores
empenhados na indagao sobre as mazelas sociais, como Luiz Ruffato,
Rubens Figueiredo e Maral Aquino.

COSMOPOLITIZANTE Na literatura brasileira, valer lembrar que o maior,
Machado de Assis, nunca concebeu cenas relevantes passadas fora do
Brasil.

Erico Verissimo desenvolveu dois romances no exterior, e na gerao
seguinte isso se tornou menos raro, com Moacyr Scliar, Joo Ubaldo,
Igncio de Loyola, Caio Fernando Abreu. Em anos bem recentes, o exterior
ganhou as manchetes, os ttulos: Joo Gilberto Noll publicou "Berkeley
em Bellaggio"; Bernardo Carvalho, "Monglia"; Chico Buarque,
"Budapeste".

A "Granta" parece ter fotografado um momento cosmopolitizante, antipovo
e autorreferente, na gerao mais nova, que surfa num mercado muito mais
maduro do que jamais foi, em todos os nveis, na renda, nos circuitos de
difuso, no consenso da importncia da leitura.

Olhando panoramicamente, duas linhas se mostram. Uma convergente: a
economia brasileira de fato se volta para fora, como um "global player",
e a nova gerao se afina com isso. Outra divergente: a nao segue
chafurdada em mazelas, como por exemplo a corrupo sistmica, para no
mencionar as enormes desigualdades sociais j quase invisveis de to
antigas, mas a nova gerao parece passar ao largo disso.

Em 55% dos contos da "Granta", h citaes ou aluses "cult", a dar
conta do registro letrado em que operam. No h empenho em aproximar do
escrito a fala popular

O grupo de escritores da "Granta"  o mais metropolitano, com 90% de
nascidos em capitais, enquanto no "Gerao 90" h mais gente nascida no
interior (41%)

A "Granta" parece ter fotografado um momento antipovo e autorreferente,
na gerao mais nova, que surfa num mercado mais maduro
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Cincia

O paradigma

Teoria sobre revolues cientficas faz 50 anos JOHN NAUGHTON


traduo PAULO MIGLIACCI

RESUMO Desenvolvida pelo fsico Thomas Kuhn no clssico "A Estrutura das
Revolues Cientficas" (1962), a teoria de paradigmas que so
compartilhados pela comunidade cientfica at que sejam superados
tornou-se um lugar-comum em discusses intelectuais e corporativas, mas
permanece brilhante e atual.

H 50 anos, a editora da Universidade de Chicago lanou um dos livros
mais influentes do sculo 20: "A Estrutura das Revolues Cientficas",
de Thomas Kuhn. Para tirar a prova, basta pensar se voc j ouviu ou
empregou a expresso "mudana de paradigma", provavelmente a mais usada
-e abusada- nas discusses contemporneas sobre mudana organizacional e
progresso intelectual.

A sacada de Kuhn surgiu da compreenso de que, se algum deseja entender
a cincia aristotlica, precisa conhecer a tradio intelectual na qual
Aristteles trabalhava. Para ele, o termo "movimento" queria dizer
mudana em geral - no s a mudana de posio de um corpo, hoje.

Essa percepo  o propulsor do livro de Kuhn, que foi lanado em 1962,
com 172 pginas. O autor se referia  edio como "um simples rascunho".
Sem dvida preferiria ter escrito um tijolo de 800 pginas. A
legibilidade e a relativa brevidade do tal "rascunho" foram cruciais
para o seu sucesso.

A proposio central  que um estudo cuidadoso da histria da cincia
revela que o desenvolvimento, em qualquer campo cientfico, acontece em
fases. A primeira  a "cincia normal". Nessa fase, uma comunidade de
pesquisadores que compartilha uma estrutura intelectual - "paradigma" ou
"matriz disciplinar" - se envolve na soluo de enigmas gerados por
discrepncias (anomalias) entre o que o paradigma prev e o que a
observao ou experimento revela.

Em geral, as anomalias so resolvidas por alteraes graduais de
paradigma ou pela constatao de erros de observao ou nos
experimentos. Como define o filsofo Ian Hacking em seu prefcio para a
nova edio de "A Estrutura das Revolues Cientficas", "a cincia
normal no busca novidade, mas limpar o status quo. Tende a descobrir o
que espera descobrir".

O problema  que em perodos mais longos as anomalias no resolvidas se
acumulam e a situao fora os cientistas a questionar o paradigma.
Quando isso acontece, a disciplina entra em crise, caracterizada, nas
palavras de Kuhn, por "uma proliferao de articulaes convincentes, a
disposio de tentar qualquer coisa, a expresso de descontentamento
explcito, o recurso  filosofia e ao debate de preferncia aos
fundamentos".

A crise  resolvida por uma mudana revolucionria de viso do mundo, na
qual o paradigma deficiente  substitudo por um novo.  a "mudana de
paradigma" que se tornou clich, e depois que ela acontece o campo
cientfico retorna  cincia normal, mas com nova estrutura. E o ciclo
recomea.

O que mais incomodou os filsofos foi o argumento segundo o qual
paradigmas concorrentes so "incomensurveis", ou seja, no h modo
objetivo de avaliar seus mritos. No h, por exemplo, como testar os
mritos comparativos da mecnica newtoniana (que se aplica a planetas e
bolas de bilhar, mas no ao que acontece dentro do tomo) e da mecnica
quntica (que trata do nvel subatmico).

Mas, se os paradigmas rivais forem de fato incomensurveis, isso no
implicaria que as revolues cientficas, ao menos em parte, tivessem
bases irracionais?

A grande ideia de Kuhn -a de um "paradigma" como estrutura intelectual
que torna a pesquisa possvel- ganhou vida prpria. Charlates,
marqueteiros e administradores de empresas a usam para convencer seus
clientes da necessidade de mudanas em sua viso de mundo. E cientistas
sociais viram uma rota para a respeitabilidade e as verbas de pesquisa,
o que por sua vez resultou na emergncia de paradigmas patolgicos em
reas como a economia.

A ideia mais intrigante, porm,  a de usar o pensamento de Kuhn para
interpretar sua realizao. Discreto, ele causou uma revoluo
conceitual mudar nossa compreenso da cincia. Mas as anomalias j
comeam a se acumular. Kuhn acreditava que a cincia girasse em torno de
teorias, mas uma vanguarda cada vez mais forte usa pesquisas baseadas
no em teorias, mas em dados.

E, embora a fsica fosse indubitavelmente a rainha das cincias, quando
o livro de Kuhn foi escrito, esse papel agora  da gentica molecular e
da biotecnologia. Ser que sua anlise se aplica a essas novas reas? Se
no, ser o momento de uma mudana de paradigma?

A ideia de Kuhn ganhou vida prpria. Charlates e marqueteiros a usam
para convencer seus clientes da necessidade de mudanas em sua viso de
mundo

Texto publicado no "Guardian". Leia a ntegra em folha.com/ilustrissima
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Entrevista

A vitria do capitalismo

Para jornalista, "nenhum outro arranjo social produziu ganhos to
sustentveis" DIOGO BERCITO


RESUMO Com formao em literatura e economia, a jornalista Sylvia Nasar
investiga em livro dois sculos de histria do pensamento econmico. Em
entrevista, ela conta que se assustou ao descobrir que Marx no entendia
conceitos bsicos de economia e lamenta que seja mais lembrado que nomes
como Alfred Marshall.

A lista de piores livros j escritos, para a jornalista americana Sylvia
Nasar, autora do best-seller "Uma Mente Brilhante", inclui "O Capital",
de Karl Marx, ao lado de "Minha Luta", de Adolf Hitler.

A falta de carinho em relao ao terico do marxismo resultou do susto
que Nasar, com formao em literatura e economia, tomou ao se aprofundar
em sua obra. "Venho de um ambiente acadmico marxista, ento fiquei
chocada quando percebi que Marx no entendeu conceitos bsicos, como a
ideia de juros", diz  Folha , em entrevista por telefone, de Nova York.

Nos ltimos anos, Nasar organizou quase dois sculos de historia do
pensamento econmico na obra *"A Imaginao Econmica" [trad. Carlos
Eugenio Marcondes de Moura, Companhia das Letras, 584 pgs., R$ 54,50]*,
que chega agora ao Brasil.

O trabalho foi to extenuante que ela prometeu a si mesma nunca mais
escrever outro livro. Os questionamentos sobre Marx, no fim das contas,
acabaram se tornando o elemento divertido da pesquisa. "Karl Marx e
Friedrich Engels so grandes personagens, cheios de contradies", ela
diz.

Contraditrios ou no, ambos foram, para Nasar, "fios constantes" na
narrativa econmica nos dois ltimos sculos -parte da mesma tradio
que levou s manifestaes do estilo "Ocupe Wall Street", que tomaram as
ruas no ano passado para protestar contra o capitalismo.

Mas a acumulao de capital  um dos heris de "A Imaginao Econmica".
A autora afirma que "nunca houve outro arranjo social que tenha
produzido ganhos to sustentveis". Essa  a "grande busca" a respeito
da qual o ttulo, em ingls, se referia ("Grand Pursuit"). Em portugus,
sumiu a ideia de uma epopeia rumo a um mundo melhor.

Na entrevista a seguir, Nasar fala sobre o resgate de personagens
esquecidos pela historiografia econmica, como Alfred Marshall e
Beatrice Potter -e sobre aqueles que, acredita, deveriam ser menos
lembrados.

-

Folha - Uma das ideias por trs de "A Imaginao Econmica"  a de que o
capitalismo melhorou o padro de vida no mundo. Mas temos visto
protestos de quem pensa o contrrio, como o movimento "Ocupe Wall
Street".

Sylvia Nasar - No h nada de novo nessas manifestaes. Esse tipo de
protesto comeou ao mesmo tempo em que ocorreu a revoluo nos meios de
vida, no sculo 19. Essas crticas, como as encarnadas por Engels e
Marx, foram fios constantes nessa narrativa. Isso  paradoxal. Nunca
houve um arranjo social e um conjunto de instituies e de prticas que
tenham produzido ganhos to sustentveis. Isso no apenas no que diz
respeito a consumo material -hoje, a maior parte das pessoas pode fazer
escolhas.

Por que ento o capitalismo  visto por alguns como um mal?

Toda recesso, no importa se severa ou branda, produz questionamentos
sobre se estamos realmente fazendo o melhor que podemos. Isso no 
ruim. Um dos temas de "A Imaginao Econmica"  que os gnios da
economia sempre pensaram que ns poderamos fazer melhor.

Mas no acho que esses protestos sejam comparveis s demonstraes de
fria que foram vistas durante a Grande Depresso, nos anos 30. Hoje, h
uma rede de proteo muito maior. Muitos pases podem proteger a
populao.

 o caso do Brasil?

Sim. A grande motivao de John Maynard Keynes e Irving Fisher para
advogar pela interveno estatal como modo de limitar a recesso
-opondo-se  ideia de Friedrich Hayek e Joseph Schumpeter de deixar a
natureza seguir seu curso- era evitar os riscos polticos.

No  que eles pensassem que a economia no se recuperaria sozinha, mas
que as pessoas iriam buscar solues que tornariam os desastres piores.
Na Amrica Latina, o maior risco poltico sempre foi o populismo. Na
Europa Ocidental e na sia, o comunismo.

A sra. diria que o socialismo perdeu a batalha como alternativa
ideolgica?

O que est falido  a ideia de que um sistema controlado pelo governo
poder produzir uma performance econmica superior, uma performance
social superior.

Essa grandiosidade, a no ser para um nmero pequeno de pessoas, est
morta por ora. A ideia de que h um modelo nico que ser seguido por
todos para atingir sucesso econmico no  comprovada por evidncia
emprica.

Mas, se voc est falando sobre socialismo como aquele do Estado de
bem-estar social, acho que ele est aqui para ficar.

Recentemente voc citou "O Capital", de Marx, como um dos piores livros
j escritos.

Eu me diverti enquanto escrevia sobre marxismo. Marx era realmente
esperto. Mas, infelizmente, ele nunca entendeu, ou quis entender, a
coisa a que ele se dedicava, que era a economia inglesa.

Estudei economia depois de me formar em literatura. Estava em
desvantagem. Era to difcil, para mim, que nunca terminei meu PhD. Mas
fiquei chocada quando percebi que Marx no entendeu conceitos bsicos,
como a ideia de juros. Os erros dele so to elementares!

As pessoas tm suspeitado da economia como cincia, dizendo que no
previu a crise.

Fazemos o melhor em termos de resolver as questes econmicas, e no h
uma alternativa real ao pensamento econmico. No  como na psicologia
ou na engenharia, em que teorias competiram por territrio.

Voc disse durante uma entrevista que, se pudesse escolher um livro para
o presidente dos EUA ler, seria "A Imaginao Econmica". Em que essa
leitura mudaria a poltica econmica americana?

Eu disse isso? [Risos] Foi realmente sagaz. Acho que, em tempos de
crise, ter liderana  realmente importante.

As polticas de Franklin D. Roosevelt no fizeram nada para terminar com
a Grande Depresso. As de Herbert Hoover, idem. As pessoas no sabiam o
que fazer. Mas eles exalavam otimismo -no um otimismo ingnuo, de que o
cu est limpo, mas a confiana de que, na economia de mercado e na
democracia, h fundamento para sermos otimistas.

O que eu gostaria de ver  o presidente dos EUA, seja ele quem for,
inspirar esse tipo de confiana. Ser til para as pessoas enxergarem
que esse no  o fim do progresso.  um problema solucionvel.

Na Europa, a impresso que se tem  de que no h soluo.

Me surpreende que ainda haja quem argumente que no fazer nada  melhor
do que fazer. Que equilibrar o Oramento  prioridade mxima. Essa ideia
no funcionou nos anos 1930!

As pessoas falam em uma "crise europeia", mas hoje h coisas como o
seguro-desemprego. A crise no est causando o tipo de sofrimento visto
na dcada de 30. Agora, h um grande colcho. Eles [os europeus] so to
ricos! As pessoas tm tempo de pensar no que funciona melhor. No foi
assim nos EUA.

Estive na Polnia, no outono passado. Todas as vitrines, nos shoppings,
tinham como alvo o pblico jovem. Todas tinham descontos para
estudantes. Minha filha me perguntou: "Ei, me, mas como estudantes
conseguem comprar aqui?"

"Uma Mente Brilhante" era sobre uma pessoa. "A Imaginao Econmica",
sobre uma cincia. So abordagens opostas?

Sim. Foi isso o que me deu trabalho. "Uma Mente Brilhante" foi uma
tarefa de reprter. S um jornalista conseguiria fazer. No havia textos
de referncia, foram necessrias centenas de entrevistas.

Em "A Imaginao Econmica", lidei com ideias. Foi como escrever dez
biografias diferentes. Organizar tantos personagens e teorias em uma
histria linear exigiu muito esforo. No sou uma grande pensadora. Sou
boa para os detalhes e para as conexes.

Qual seria o resultado de "A Imaginao Econmica", se voc no fosse
jornalista?

Nenhum economista escreveria esse livro. Eles no dedicariam o tempo
deles para isso.  preciso ser um generalista. Cada pessoa, cada evento
sobre os quais escrevi no livro tem uma indstria de acadmicos por trs
dele.

Acadmicos no fazem isso, e no deveriam -mas jornalistas podem entrar
em um assunto em "estado de ignorncia", confiando na sua habilidade de
reunir informaes e contar histrias.

Nesse processo, voc resgatou personagens esquecidos pelas narrativas
tradicionais, como Beatrice Potter e Alfred Marshall.

E Irving Fisher. Quando entrevistei [o economista] Milton Friedman, ele
me disse voluntariamente que o maior economista americano do ltimo
sculo foi Fisher. Mas ningum fora do meio econmico sabe quem ele .
Ele desapareceu do conhecimento popular.

 como Alfred Marshall, que todos tratam como um vitoriano fora da
realidade, mas que era muito mais consciente sobre a situao inglesa do
que Marx.

Acho isso engraado. Como  que Marx, o cara que estava errado, terminou
como um santo e Marshall, o cara que era realmente uma fora criativa,
teve suas contribuies minimizadas?

Voc esteve ocupada com grandes projetos nos ltimos 15 anos. Qual  o
impacto na sua vida?

No final de "A Imaginao Econmica", disse aos meus filhos -se eu
disser que vou escrever um livro de novo, por favor peguem uma arma e
atirem em mim.

Quando voc est fazendo uma reportagem, pode entregar o texto ao editor
e aproveitar o fim de semana. Quando escreve um livro, est sempre se
sentindo culpado. Ou est trabalhando, ou est evitando trabalhar.

Mas foi bom que eu tenha demorado tanto para escrever esse livro. A
nica poca em que as pessoas se interessam por economia  durante
recesses.

"Nunca houve um arranjo social e um conjunto de instituies e de
prticas que tenham produzido ganhos to sustentveis [quanto o
capitalismo]"

"Est falida a ideia de que um sistema controlado pelo governo tenha
performance econmica superior. Mas creio que o Estado de bem-estar
social esteja aqui para ficar"

"Como  que Marx, o cara que estava errado, terminou como um santo e
Marshall, o cara que era realmente uma fora criativa, teve suas
contribuies minimizadas?"
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Dirio do Rio

O MAPA DA CULTURA

Temporada do desenho

E as caronas para Zeca Pagodinho ALVARO COSTA E SILVA


Setembro, por estas bandas,  a temporada do risco. No dia 20, comea no
Centro Cultural da Justia, na Cinelndia, a exposio "6B: Desenho
Contemporneo Brasileiro", com 50 artistas, entre os quais Manfredo de
Souzanetto, Hilton Berredo, Teresa Salgado, Daniel Senise, Yara Pina,
Francisco Faria e Roberto Magalhes.

 o desenho em suas amplas expresses: papel, madeira, tela e outros
suportes, com materiais como grafite, carvo, airbrush, fotografia, fios
de variadas naturezas e tcnicas digitais.

"A dificuldade em definir o desenho j  reveladora de sua variedade
expressiva e capacidade de transformao", diz o curador, Mauro
Trindade. "Tradicionalmente, ele inclui tcnicas secas, enquanto a
pintura usa processos de tinta lquida, fronteiras perturbadas desde
sempre pelo pastel, o nanquim, a aguada e o hbrido desenho aquarelado.
Com novos materiais, a definio torna-se ainda mais incerta. E
sugestiva."

Roberto Magalhes, alm de figurar "6B", ganha no dia 13 retrospectiva
individual no Pao Imperial com trabalhos de seus 50 anos de carreira. O
autor da tela "Gritando" -um rosto com a boca escancarada-  prova das
mltiplas maneiras que o homem descobre para se comunicar. Ele mesmo
quase no fala;  um buda do silncio que, no entanto, grita.

MSICA E COMIDA

O jovem Casaro Ameno Resed traz no nome uma homenagem quele que 
considerado o maior rancho do carnaval carioca, badalado por Catulo da
Paixo Cearense, Pixinguinha, Coelho Neto, e recebido com pompas pelo
presidente Hermes da Fonseca no Palcio do Catete, em 1911.

A casa, sofisticada, -de msica e gastronomia- fica na rua Bento Lisboa,
a poucos passos da antiga sede do governo, e foi criada pelo economista
Carlos Lessa para levantar a regio, at recentemente depauperada.
Amanh, apresenta-se por l a cantora urea Martins; e, na quinta, a
banda Pixinguinha em Jazz, com participao do flautista Carlos Malta.

No segundo andar funciona a filial do restaurante Sobrenatural, sob o
comando de Srvula Amado.

Pea o escondidinho de bacalhau e, entre uma garfada e outra, pergunte a
Srvula sobre as caronas que ela dava para Zeca Pagodinho na sua moto DT
180.

D-LHE, IRIGOYEN

"Pginas sem Glria", novo livro de Srgio Sant'Anna, est quase
chegando s livrarias. Rene dois contos largos e a novela-ttulo, cuja
ao gira em torno do futebol e do turfe, dois esportes pouco abordados
na literatura brasileira.

O futebol at que teve mais ateno, e o prprio Srgio lhe dedicou dois
excelentes contos, "No ltimo Minuto" e "Na Boca do Tnel".

Poetas escreveram sobre o hipdromo da Gvea -que agora ressurge como
cenrio ficcional-, que, desde o incio dos anos 90, entrou numa
adorvel decadncia. Manuel Bandeira anotou: "Os cavalinhos correndo/ E
ns, os cavales, comendo". Tite de Lemos fez extenso poema, "Corcovado
Park", to belo quanto desconhecido, no qual descreve uma nica corrida,
com auxlio de desenhos.

Srgio Sant'Anna evoca o tempo de craques como Tirolesa, Escorial,
Itajara, Emerald Hill, todos pules de dez, que o autor, ainda
adolescente, conheceu quando passou a frequentar o prado, animado com a
sorte de principiante que lhe fez acertar uma dupla 13.

Mais que cavalos e guas, ele se encantou com a maestria e elegncia do
chileno Francisco (Pancho) Irigoyen, brido que sabia dosar as energias
do animal para s exigir dele na reta de chegada, at dominar o preo em
cima do disco.

" um personagem de histria mirabolante, assim como todo o ambiente
turfstico. A quem no conhece, recomendo uma visita. E uma fezinha nas
patas dos cavalinhos", diz Srgio.

TOCA PRO DIVINO!

Taxistas da cidade tm recebido -no de turistas, diga-se- pedidos de
corridas para o Divino, subrbio onde habitam Carminha, Max, Nina e
demais personagens de "Avenida Brasil". Joo Emanuel Carneiro, o autor
da novela, inspirou-se na real Madureira, terra que abriga o clube de
futebol de mesmo nome e as escolas de samba Portela e Imprio Serrano.

Mas no s. Se voc quiser ir alm da fico, este diarista sugere uma
passadinha no bloco afro Agbara Dudu e no Jongo da Serrinha; na rua
Almerinda Freitas, palco, nas noites de quarta, de concorridas festas da
comunidade LGBT; no basquete de rua embaixo do Viaduto Negro de Lima;
no Boteco do Z; no Mercado, que tem de tudo em suas cerca de 650
lojas. Com sorte, esbarra-se no Tufo.
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Arquivo Aberto

MEMRIAS QUE VIRAM HISTRIAS

Os desafios do mestre

So Paulo, anos 2000 KIKO GOIFMAN


CREIO QUE foi em 2004, quando meu documentrio "33" entrou em cartaz,
que fui alm dos cumprimentos e me aproximei de Jean-Claude Bernardet.
Na ocasio, ele escreveu uma resenha elogiosa sobre meu filme no extinto
"Mais!", da Folha , o que me deixou feliz, pois o considerava o pensador
mais instigante de nosso cinema.

Com os anos, comecei a frequentar o apartamento dele, no edifcio Copan.
Um dia, fui com o roteirista Hilton Lacerda. Estvamos entusiasmados com
o argumento de um filme que faramos juntos, uma fico sobre fobias, e
queramos a opinio do mestre.

Falamos longamente, Jean-Claude ouviu. Ao final, disparou: "Isso  o
argumento de um filme de terror, o que no  um problema. O problema 
que  o argumento de um pssimo filme de terror". E vaticinou: "Est uma
merda".

Cabisbaixos, Hilton e eu fomos tomar uma cerveja. Era difcil assumir,
mas Jean-Claude tinha razo.

Meses depois, mudamos toda a lgica do filme, mas mantivemos a ideia de
abordar fobias. Trabalharamos de outra forma, introduzindo o inesperado
na fico, com atores fbicos e no fbicos, e o filme ganharia em
ousadia.

Liguei, tmido, para Jean-Claude. Falei das mudanas e o convidei, sem
jeito, para assumir o papel principal. Ele nunca tinha sido
protagonista, s feito participaes em filmes, mas topou na hora.

Foi ento que nossa relao mudou de vez. Chego a esquecer que, nos anos
80, quando eu estudava cincias sociais na UFMG, Jean-Claude era nosso
dolo pelo que escrevia sobre cinema -na poca, a bibliografia da rea
era quase inexistente. Cheio de medo, encarei o desafio a que me propus,
sendo eu o diretor e ele o ator. Foi difcil.

Como conseguir dinheiro para filmar no  fcil, o tempo passou. Em
2006, o festival de documentrios " Tudo Verdade" fez uma homenagem a
Jean-Claude. Na mesa, estavam comigo Amir Labaki, Carlos Augusto Calil e
Eduardo Coutinho. Este ltimo fez Jean-Claude se emocionar ao dizer que
sua obra "Cabra Marcado para Morrer" era uma resposta aos artigos que
ele escrevia. Sentado numa das ltimas fileiras, ele deixou a sala
chorando. Na mesa, l na frente, disfaramos as nossas lgrimas.

Em 2007, pudemos enfim trabalhar com afinco em "FilmeFobia". Diante
daquele homem que sempre topava desafios, eu me senti na gostosa
obrigao de ser ousado.

A cada visita ao Copan, eu propunha algo novo, e a resposta sempre era
sim. Com problemas na viso, ele topou que o personagem tambm tivesse
essa crise. Mais: sugeriu que filmssemos um tratamento no qual ele
recebia injeo dentro dos olhos. Filmamos.

Pedi que o personagem fosse, assim como ele, HIV positivo. Outra vez
Jean-Claude topou.

Pedi ainda que ele, j com mais de 70 anos, descesse um poo de 8 m de
profundidade amarrado por uma corda. Novamente concordou, mesmo sabendo
que o poo, fechado por muitos anos, havia desenvolvido fauna e flora
arredias ao corpo humano.

Lembro cada visita ao Copan, sua fala sbia, as viagens que fizemos com
"FilmeFobia". Em 2008, na Sua, soube depois que, durante o debate do
filme, Jean-Claude danava s minhas costas. A besta aqui respondendo,
compenetrado, e ele bailando atrs de mim, para risos da plateia.

Senti tanto prazer com essa relao que estamos de novo juntos em um
filme, num projeto em andamento. As memrias que relato esto mais vivas
que nunca, sempre com a presena de minha mulher, Cludia Priscilla,
assistente de direo, e de nosso filho, Pedro, que acompanhou as
filmagens.

Hoje, aos 9, Pedro percebe Jean-Claude como o av que nunca teve. O
melhor resumo dessa memria  ver Jean-Claude deitado no set de
filmagens, concentrado para uma cena, e Pedro deitado ao seu lado,
fazendo um cafun gostoso naqueles cabelos brancos e finos.
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Imaginao

PROSA, POESIA E TRADUO

Simples encontro LCIO CARDOSO


SOBRE O TEXTO Publicado em "Letras e Artes", suplemento do jornal "A
Manh", em julho de 1950, este conto permaneceu 62 anos indito em
livro. Integra a coletnea "Contos da Ilha e do Continente", que a
Civilizao Brasileira lana em outubro, com organizao de Valria
Lamego.

Era um domingo pela manh, e o mar brilhava. Mas no brilhava da mesma
maneira uniforme e lisa; ao contrrio, grandes zonas iluminadas viajavam
na superfcie ondulada pelo vento, contrastando com a sombra que os
rochedos da ilha projetavam n'gua. Algas arrancadas das pedras pelo
ltimo temporal, rolavam nas mars intermitentes - e as gaivotas, h
tanto tempo desaparecidas do cu imenso e branco, surgiam de novo
barulhentas enchendo o ar de gritos rpidos e cortantes.

O pique-pique fora combinado para depois da missa, e junto  palmeira
designada para o encontro -a mais antiga, meia curva, com um tufo roxo
de parasitas sobressaindo dentre os espinhos negros- duas das minhas
companheiras j se encontravam. De longe, vi os seus claros vestidos
correndo, saltando, na estonteante alegria que nos vinha talvez da
maravilhosa paisagem.

- La! La! - gritaram assim que me viram. - Que trouxe voc para o
nosso almoo?

E, sem esperar resposta, puseram-se a danar em torno de mim, saltando e
batendo palmas.

- Oh, La, como  lindo o seu vestido! Como voc fica bem de vermelho!

Coloquei no cho o pequeno cesto que eu trazia, misteriosamente coberto
com um guardanapo branco. A pequena Sara, mais curiosa do que a irm,
repetiu a pergunta:

- Que nos traz voc para o almoo, La?

- Figos e morangos - disse eu, suspendendo o guardanapo -, morangos da
serra.

- Oh, eu adoro morangos! - gritou Sara, recomeando a saltar.

Colocado o cesto junto s outras provises, tudo bem abrigado sob a
palmeira, fomos ver as raridades que j tinham achado na praia: uma
estrela-do-mar, seca e arroxeada, algumas conchas quebradas e duas ou
trs substncias gelatinosas, estranhas, frementes, de cor azulada,
incerta, que ainda parecia conter os ltimos lampejos da noite
submarina.

- Cuidado, Sara, isto queima!

- Ui! - fez ela, abandonando violentamente a matria, que rolou inerte
ao sol. Um instante ainda quedou imvel e azulada - depois uma onda mais
forte levou-a, incorporando-a de novo ao seu indevassvel mundo escuro e
lquido.

- Adeus - gritou a pequena Sara para a onda que se retraa -, volte
outra vez ao fundo do mar!

Continuamos as nossas pesquisas e, como a espuma nos molhasse, tiramos
os sapatos. Maravilhadas, deixvamos que nossas pegadas se imprimissem
na areia mole. O sol, mais alto, fazia verberar intensamente toda a
vasta extenso do mar.

- No nos afastemos muito - propus eu -, talvez os outros cheguem e no
nos encontrem.

De fato, outros companheiros vinham chegando: Eduardo e a irm, Rosa e
Marcelina. Ao todo ramos sete e tnhamos combinado aquele piquenique
para comemorarmos o incio das frias. Oh, depois do longo perodo de
estudos, como estvamos sfregos por liberdade, ar livre, o vento e as
praias! Como a ilha nos pareceu um recanto abenoado, com suas rochas,
suas furnas, suas rvores, sua cabeleira verde, nativa e abenoada! Eu
ento, a quem a longa doena de meu pai retivera tantos meses  sua
cabeceira, olhava para tudo aquilo com um verdadeiro sentimento de
embriaguez. Uma energia nova despontava realmente no meu ntimo- e
isenta de cuidados, tonta, feliz, eu corria de um lado para outro,
sentindo a minha alma se dilatar como se dentro dela penetrasse todo o
azul do oceano. Corramos -e tudo nos servia de pretexto para correr:
uma onda maior que nos assustava, uma borboleta amarela que vinha do
mato e se desgarrava na praia, um avio cortando alto e ntido a imensa
placidez do cu...

Sim, lembra-me que Eduardo, de joelhos sobre a erva, comia gulosamente
alguns morangos furtados. Sara e Rosa tinham desaparecido ao longo da
praia -s suas vozes, agudas e alvoroadas, denunciavam o fervor das
primeiras pitangas descobertas. Marcelina, os cabelos batidos pelo
vento, tentava escalar um rochedo demasiado ngreme para as suas foras.
E no centro de tudo, como um pequeno corao pulsando pela natureza
inteira, eu me achava sozinha. Foi nesse instante, exatamente, que vi o
homem. Estava um pouco distante e no perdia nenhum dos nossos
movimentos. Era magro, alto e, menos do que sua estranha atitude de
observao, o que nele me chamou a ateno desde o incio foi o chocante
contraste que oferecia  paisagem: no havia nada em sua pessoa que
lembrasse a claridade e a alegria que nos cercava, ao contrrio,
vestia-se severamente de preto, e escondia mais ou menos o rosto 
sombra de um chapu tambm preto. No sei porque, meu corao se
confrangeu, e nesse sentimento havia algo do terror e da emoo com que
havamos contemplado minutos antes a substncia gelatinosa do mar.
"Talvez seja um doente, um desses tipos to comuns que procuram o clima
hospitaleiro da ilha" -pensei comigo mesma. O certo  que, sabendo-me
observada, minha alegria no foi mais to espontnea. Corria, corria
ainda fugindo das ondas que vinham se desfazer aos meus ps, revoluteava
 toa pela praia -mas j agora a figura do estranho me obcecava. L
estava ele, imvel, no mesmo lugar. Meu Deus, jamais abandonaria aquela
posio?

Pouco a pouco senti que ele exercia certa atrao sobre mim e que seus
olhos me fixavam de preferncia. Quase sem querer, e sem saber porque o
fazia, fui me aproximando aos poucos. Vi ento que seu rosto era triste
e severo.

- Bom dia - disse-me ele, sem dvida esforando-se para ser acolhedor.

- Bom dia - respondi eu, cheia de susto, de receio e curiosidade.

- Como se chama voc? - perguntou-me.

- La.

- Bonito nome! E vieram fazer um piquenique aqui?

- Sim, vimos aproveitar a manh.

Ao mesmo tempo que eu falava, pensava consigo mesma; " um doente, s
pode ser um doente. Nunca vi ningum to plido assim..."

- E que fazem vocs, correndo?

- Oh, apanhamos conchas... estrelas do mar... coisas por a...

Ele fitou-me severamente, como se isto no fosse uma ocupao para uma
menina da minha idade.

- J tem 15 anos? - tornou a perguntar.

- Vou faz-los daqui a trs dias...

- Ah! - e no disse mais nada.

Por um momento olhou em torno, como se procurasse meus companheiros com
a vista. E de repente, com voz surda e ligeiramente trmula, indagou:

- No gosta de flores?

- Flores? Gosto muito - respondi.

Ento ele fez um sinal e mostrou-me o rochedo mais prximo:

- Ali em cima h uma, maravilhosa...

- Uma qu? - fiz eu, sem compreender.

- Uma flor, uma papoula.

No acreditei, cheguei a rir:

- Papoulas no do sobre as pedras...

Ele zangou-se e seu rosto se tornou muito srio ainda:

- Esta  uma papoula especial... uma papoula azul.

Eu no sabia o que pensar e fiquei olhando-o. Talvez fosse verdade, quem
sabe? Sua voz era to fria e convincente! Como eu demorasse a responder,
vi acender-se nos seus olhos um brilho de impacincia:

- No quer v-la?

- Quero... mas onde est?

- Por trs daqueles cactos... daqui no se v.

Sobre os rochedos mais prximos, estranhos e solitrios, cresciam
gigantescos cactos que o vento do mar aoitava. Naquele minuto, no sei
se acreditava ou no que existisse entre eles uma papoula azul -sei
apenas que o mistrio daquele homem me atraa. Acompanhei-o. Por trs de
mim, ouvia as risadas de meus companheiros, que se distanciavam. O homem
caminhava na minha frente, curvado, ofegante, como se tivesse pressa.
Seus dedos longos, agudos, agarravam-se  rocha como garras. No tardou
muito em que chegssemos ao alto -e numa rpida pausa, enquanto
respirava, banhei-me na viso do mar que se descortinava inteiro,
soberano, reinando dentro de um vasto espao de luz e de silncio. Ao
longe, passava um vaporzinho -e l em baixo, na franja dourada da areia,
Sara e Rosa corriam descalas e gritavam, deviam ter achado qualquer
coisa. Sbito, voltei-me: o homem me fitava com olhos estranhos.

- Onde est a papoula? - perguntei.

- Ali - mostrou-me ele.

- Olhei e no vi nada, s os cactos.

- Onde?

Ele se aproximou mais, como para mostrar-me a flor.

- Ali, bem ali.

Olhei de novo -e de repente senti uma dor aguda, horrvel, atravessar-me
o brao. Dei um grito, sem compreender o que fosse e, erguendo-o, vi com
espanto que o homem tinha enterrado nele um comprido e negro espinho de
cactos.

- O senhor! - exclamei com um soluo, apavorada.

Ele me fitou com olhos de que jamais me esquecerei, to duros, to
cruis se mostravam. Ao mesmo tempo que ele se revelava com esse olhar,
no tive mais dvida de que me achava na presena de um louco.

- Rosa! Sara! - comecei a gritar, com um fio de sangue a me escorrer
pelo brao.

De um salto o homem se afastou e desceu pelas pedras, correndo. Na fuga
o chapu lhe caiu, ele o apanhou com um movimento convulso e continuou a
correr, sem olhar para trs. Vi ento que era completamente calvo e,
fascinada, acompanhei-o com a vista at que, atravessando a zona de sol,
integrou-se na sombra, onde desapareceu para sempre.
